Conversamos com o criador do Surfest Luz — MOIST

“O Surfest 2017 rolou na paradisíaca Praia da Silveira, em Garopaba, SC.”

FOTOS E LEGENDAS: WILLIAM ZIMMERMANN

De vez em quando no surf, aparece algo, ou alguém, que rema contra a corrente e cria algo diferente do que estamos acostumados a ver. Há alguns anos, uma dupla do Rio Grande do Sul criou uma plataforma com intuito de ampliar os horizontes do surf, extrapolando a bolha em que inevitavelmente nos envolvemos. Infelizmente, Lucas Zuch faleceu em março deste ano — mas seu amigo e co-criador do Surfari, Eduardo Linhares, se adaptou para levar adiante o espírito do projeto.

O falecido Lucas Zuch (RIP) e Eduardo Linhares. Foto: Caio Guedes
O falecido Lucas Zuch (RIP) e Eduardo Linhares. Foto: Caio Guedes

Uma das iniciativas da dupla foi a criação, em 2016, de um evento completamente fora dos moldes de campeonatos de surf tradicionais. A primeira edição do Surfest rolou na praia de Atlântida, perto de Porto Alegre, RS. Neste ano, a segunda edição rolou — em memória a Zuch — na Praia da Silveira, que abriga uma das melhores ondas do Brasil. A MOIST conversou com Duda Linhares para entender melhor o evento sob a perspectiva de seu criador e organizador.

 

CONCEPÇÃO

"Fui convidado pelo Duda pra ser jurado na categoria Fotografia, além de fotógrafo do evento."

“Fui convidado pelo Duda pra ser jurado na categoria Fotografia, além de fotógrafo do evento.”

“O Surfest de 2016 surgiu com a vontade minha e do Zuch de quebrar com a ideia tradicional de campeonato de surf. Sinceramente, pra quem não é muito fissurado, é muito chato ficar na beira da praia durante um campeonato de surf. Quem não entende quem é o cara mais quebraceira, ou por quê a manobra de um cara foi melhor que outra, acha um saco. É uma piada interna até. O primeiro objetivo foi criar um modelo de campeonato que integrasse a praia. Algo mais democrático, divertido, onde todos se sentissem atuantes, não só passivos. A categoria ‘fantasia’ era algo que representava bem essa primeira versão do Surfest, numa vibe bem mais festiva, no verão, na praia na praia de Atlântida — que não é tão bonita, mas é que tem muita festa, muita energia.”

 

FORMATO

"À tarde, explorei as fotos dos bastidores embaixo de um sol digno de Janeiro."

“À tarde, explorei as fotos dos bastidores embaixo de um sol digno de Janeiro.”

“A maneira que a gente achou de fazer um formato bacana foi uma competição entre times, porque essa era a nossa cultura de surf lá no Sul. Todo mundo tinha seu grupo de amigos de surfistas. ‘Ah, vamos botar a nossa galera contra a galera da Zona Sul, contra o pessoal de Caxias do Sul, contra a turma mais hardcore e punk rock, contra as gurias, contra as gurias que são mais good vibe, contra a galera do interior,’ sabe? Tentar pescar esses grupos de surfistas e criar um ambiente de rivalidade, mesmo que ela não exista de verdade, para que se crie torcida.

 

EDIÇÃO 2017

 "Muito mais que uma competição de surf, o evento é uma celebração onde todos ganham em prol de um bem maior."

 “Muito mais que uma competição de surf, o evento é uma celebração onde todos ganham em prol de um bem maior.”

“Depois do acidente e de tudo que aconteceu [com Zuch], e versão deste ano se tornou uma parada muito especial, porque virou um campeonato de homenagem. Eu e o Zuch já tínhamos na gaveta a ideia de fazer um Surfest de inverno, um pouco mais intimista e core, menos oba-oba, em uma praia mais surf, em condições melhores. Um pouco mais maduro. Cara, quando a ideia foi para a rua, era muito menor — eram apenas oito barcas, com dois patrocinadores. Muita gente veio comprar a causa. Não só patrocinadores e apoiadores, como amigos falando que queriam ajudar, fazer parte, perguntando como poderiam ser úteis para o campeonato com o que sabem fazer. Desde a primeira edição, o Surfest é um campeonato organizado coletivamente — pode parecer blá blá blá, mas a galera se sente dona. Tanto a galera das equipes, que têm seu próprio estande na praia, quanto a galera das feirinhas, que mostra seus produtos. O staff é de amigos, sabe? Já foi assim na primeira edição e, agora que foi na memória do Zuch, ficou ainda mais.”

 

O DIA DO EVENTO

"O dia escolhido não poderia ter sido melhor. A praia lotou e a vibe era sentida de longe."

“O dia escolhido não poderia ter sido melhor. A praia lotou e a vibe era sentida de longe.”

“Coincidiu com um dia bizarro, totalmente fora da média para a época. A gente esperava um dia mais frio, um pouco mais ventoso. Cara, foi um dia perfeito — quente, com uma brisinha variando — na praia da Silveira, que é um paraíso. Claro que surgiram vários desafios, por ser um lugar que precisa ser muito bem cuidado em respeito às áreas protegidas, das dunas e tal. Mas foi épico — a energia estava muito boa, num clima de abraço, de sorriso. Acaba que a competição fica completamente em segundo plano. Claro que ganhar é legal, a premiação é boa, mas a galera não está nem aí. Todo mundo se aplaude, torce um pelo outro. Criam-se as rivalidades das barcas — tinha a galera de Floripa, a galera de Balneário [Camboriú], tinha a galera local de Garopaba. Tinha mulher disputando bateria contra homem… é um campeonato sem nenhuma distinção de gênero. E a gente faz questão de dar bandeira para cada equipe, que cada equipe decore seu espaço, para que se crie esse clima de… não de competitividade, mas de time. Torcida, envolvimento, engajamento.”

REPERCUSSÃO LOCAL

Yago Dora e o videomaker Bruno Zanin apreciando a vibe de primavera na Silveira.

Yago Dora e o videomaker Bruno Zanin apreciando a vibe de primavera na Silveira.

“É interessante que, numa praia como a Silveira, que tem um localismo forte, os locais compraram muito a ideia. A primeira disputa do dia é a dos local heroes, eles têm a equipe deles. É muito massa ver esse envolvimento com uns caras com quem a gente geralmente tem atrito ao ir para lá. Então eu acho que deixa um legado legal para a cidade. Teve um movimento muito fora da média — a galera local falou que incrementou bastante a renda, num final de mês em ano de crise, num lugar super sazonal como Garopaba, que só enche no verão. Deu uma felicidade incrível terminar o dia, ainda mais depois da festa, dando tudo certo.”

 

DAQUI PRA FRENTE

"Na parte da manhã, explorei bastante as fotos de dentro dágua usando longa exposição na categoria Longboard."

“Na parte da manhã, explorei bastante as fotos de dentro dágua usando longa exposição na categoria Longboard.”

“Fico até com vontade de fazer outros, porque a fórmula é muito boa e as marcas tiveram um retorno bom. Acho que o lance agora é achar um outro lugar, novas categorias. Acho que dá para variar e fazer novas brincadeiras. A grande verdade é que a gente sempre quis ter um campeonato de que pudéssemos participar. Mas como a gente não é tão quebraceira assim, não tinha. Então a gente criou nosso próprio campeonato (risos). Acho que o grande objetivo é, um dia, ter a equipe do staff competindo.”

Fonte: Conversamos com o criador do Surfest Luz — MOIST

Deixe uma resposta