Surfsauros nas Maldivas 2012

Sair numa surftrip com os amigos nunca é fácil, mais difícil ainda é quando se tem 50 anos, compromissos profissionais e principalmente, familiares. Pausa pro chororô. Mas como já é de praxe, este ano queríamos fazer uma viagem longa prá comemorar as 50 primaveras e particularmente, meu sonho era uma trip para as ilhas Maldivas. Apesar do sonho de consumo de praticamente todo o surfista é ir para a Indonésia, minhas habilidades surfisticas não recomendavam uma trip para um lugar de coral afiado e ondas rápidas, então, o destino escolhido foram as Ilhas Maldivas.

Prá quem não sabe ou nunca se interessou, as Maldivas são um conjunto de atóis ao sul da Índia, em pleno Oceano Indico. Como curiosidade, o ponto mais alto do país tem apenas 2,5m de altura, o que faz com que as Maldivas sejam um dos primeiros países a vir a desaparecer durante o aquecimento global, ou seja, visite antes que acabe. É um país muçulmano com uma população de 350 mil habitantes, espalhados em centenas de atóis, sendo que quase 1/3 vive espremida na capital, Malé. O lado ruim é que, como um país fortemente muçulmano, bebidas alcoólicas são terminantemente proibidas. Porém, eles criaram uma exceção a esta regra permitindo o consumo de álcool apenas dentro dos resorts. Foi o jeito que eles bolaram para driblar a proibição e atrair milhares de turistas ávidos por sol, água claríssima e claro, birita. É claro que nosso interesse estava mais no surf, mas umas geladas sempre vão bem.

Existem duas opções pra quem vai surfar, ficar em um resort num dos atóis onde dá onda na cara do gol e eventualmente explorar os outros picos de barco, ou ficar num dos barcos que ficam pulando de atol em atol em busca dos melhores picos. Fica ao gosto do freguês. Dada a avançada idade e natural receio de marear de alguns (mentira, todos) membros da trip, optamos por ficar num dos dois hotéis que ficam na cara do gol, com a vantagem dos picos destes hotéis serem exclusivos dos hóspedes. Acrescente água quente, cerveja gelada a vontade e comida liberada, fica claro também qual foi nossa opção. Existem, até onde nossas pesquisas indicaram, dois destes resorts “orientados” ao surf. Um deles, onde ficamos, é o Hudhuranfushi (ex-Lohifushi) e o outro é o Dhonveli. Cada um deles tem sua onda exclusiva pra quem fica neles.

A viagem é um capítulo a parte, o caminho mais curto é via Dubai, 14:30 de uma looooooooonnnnnnnnngaaaaaaaa viagem aérea, mais 4:00 de Dubai a Malé. Adicione mais o trecho interno no Brasil, o stress das conexões, arrastar um sarcófago com 3 longboards pelo aeroporto de Garulhos, 8 horas de fuso horário e mais o tempo de conexão em Dubai (sim, mais 4 horas…) e pode-se ter uma idéia de quão longe ficam as Maldivas. É longe prá caralho e arrebenta o saco de qualquer cristão, muçulmano, judeu ou ateu. Porém, quando o avião começa a preparar o pouso, a vista daquelas centenas de ilhotas cercadas por um mar azul transparente parece uma visão do paraíso. O cansaço se vai em instantes.

O aeroporto de Malé não passa de um grande galpão e aí o calor e a umidade se apresentam com força. Na saída do aeroporto, cada resort tem um stand onde você se apresenta e eles te levam pro barco que te leva ao teu resort/ilha. Ao invés de pegar um taxi pro teu hotel, se pega um barco. O próprio aeroporto fica numa ilha própria. A água do mar, mesmo numa ilha movimentada como a do aeroporto é absurdamente transparente. Mais limpa do que muita piscina, as Maldivas apresentam suas credenciais. O povo é de ascendência indiana assim como os costumes de se vestir e do inglês falado pelos locais, ainda que a língua oficial seja o dhivehi e mais alguns dialetos.

O surf acontece nas ilhas em volta da laguna principal de cada atol, normalmente em frente a uma das ilhas que circundam o atol. Como são milhares de atóis, devem existir centenas de bons picos de surf nas Maldivas ainda por serem descobertos. Na região onde ficamos (North Malé) existem vários picos de surf, alguns em ilhas desabitadas e outros em ilhas pertencentes a resorts, nosso destino foi o hotel Hudhuranfushi, que tem um pico de surf privativo, o Lohis. Quem não está hospedado não pode surfar ali, o que é uma vantagem. O outro resort com surf na região é o Dhonveli que tem o pico de Pasta Point, também privativo. Lohis é uma esquerda que quebra em fundo de coral, mas quebra a uma boa profundidade, não é raso e nem afiado como a Indonésia. A entrada e saída do pico é um pouquinho tensa prá quem não tá acostumado com este tipo de fundo. Não tem moleza, se entra e sai do mar caminhando pelos corais. Nessa hora uma botinha pode salvar seus pés de cortes e arranhões. A maioria do pessoal que surfa não gosta e não usa, o resultado é que todo mundo anda com os pés cortados. Como gosto muito dos meus pés, usei botinha todos os dias. É uma onda muito fácil e extremamente lisa. O grande barato é ver o fundo de coral passar correndo por baixo da onda, o visual é inacreditável. No primeiro dia pegamos um vento maral horroroso que acabou com as ondas do pico. O pior é que este tipo de vento acaba com as ondas em todos os lugares, pois não existem a proteção de morros para os ventos. Depois disso pegamos apenas mais um dia com vento maral, no resto foi só alegria. É comum dividir o pico com tartarugas, arraias e mais uma enorme variedade de peixes, felizmente os tubarões não deram as caras por ali. A noite o pessoal do hotel faz uma espécie de “show” jogando pedaços de carne ao lado do pier e aí eles aparecem aos montes.

Pegamos ondas que variavam de 2 a 5 pés. O que faz as ondas mudarem é a mudança da maré, na maré cheia rolam as melhores e maiores ondas e usualmente na maré cheia também o vento diminui. Uma outra coisa curiosa é a rapidez com que as ondas mudam, em questão de 15 minutos, o mar pode ir de 2 a 5 pés e o pico pode mudar um pouco de lugar. Portanto, fique ligado no tábua das marés. A onda é longa e pode chegar a uns 200m. 200m de pista lisinha, as vezes se tem a impressão que se está surfando num vidro. Cuidado prá não fazer a onda até o final, pois ela quebra praticamente em cima das pedras e dos corais. A crowd é amistosa, de principiantes a profissionais e tem gente do mundo todo, brasileiros, australianos, italianos, franceses, israelenses e por aí vai. A crowd quase nunca supera umas 20 cabeças na água, já que o pessoal costuma ficar entrando e saindo do mar a todo momento.

É possível pegar o barco de surf do hotel e surfar outros picos da região, como Ninjas, Cokes, Sultans, Jailbreaks e outros. Prepare o bolso, são 45 dólares por cabeça a cada saída do barco, mas é possível comprar um pacote de estadia com todas as saídas de barco incluídas. Ninjas e Jailbreaks são direitas mais fáceis, já Sultans e principalmente Cokes são mais pesadas. O Eric foi um dia a Cokes e pegou boas ondas por lá, onde a onda é mais rápida e rolam uns tubos com o swell e a maré certas. Nossa ida a Jailbreaks e Sultans foi frustrada pelo vento, quando chegamos lá não tinha onda. O problema é que se estiver dando onda em Lohis, todos os outros picos vão estão no máximo iguais e aí nao vale o esforço.

O Hudhuranfushi é um hotel bem meia-boca, no máximo é um hotel 3 estrelas. Aliás, apelidamos o hotel de Not Allowed Fushi, pois nunca vi um resort de praia tão cheio de regras e restrições. O quarto é relativamente confortável, tem ar-condicionado, ventilador de teto, e uma cama razoável, além de alguns quartos terem seu banheiro ao ar-livre. Como nosso pacote era ali-inclusive fazíamos todas as refeições ali e a comida é bem ruim. O staff do hotel é péssimo, fazem tudo com uma certa má vontade e tudo é cobrado como extra. Sair para visitar outras ilhas ou mesmo ir a Malé é impossível, pois não existe sistema de transporte regular entre o resort e as outras ilhas. Se você quiser sair do hotel, vai ter que ir num dos pa$$eios organizados pelo hotel. Assim, queira você ou não, uma vez no Hudhuranfushi, você fica realmente ilhado nele. O Hudhuranfushi vale pelo surf, só. Se você quiser fazer uma viagem de lua-de-mel ou levar a família, é recomendável procurar outro resort e se quiser ainda pegar umas ondas, pesquise um resort que tenha o serviço de barco pro surf. Existem milhares de resorts nas Maldivas, todos eles são caros, mas alguns são estupidamente caros.

Além do surf, não resta muito o que fazer, ou melhor, a melhor pedida é mergulhar. As Maldivas são um aquário natural com uma vida marinha riquíssima e uma água transparente. Seja de snorkel nas praias do hotel ou com as operadoras de mergulho (tem uma no hotel) essa é uma ótima pedida. Fizemos um tour em Malé numa tarde e vale a pena ver como funciona a vida numa ilha de 2km quadrados e 150.000 pessoas. É um caos de motos e gente por todos os lados, sendo que a maioria de mulheres anda coberta e um bom número só com os olhos de fora. Não há muito que ver na verdade, mas existem alguns pontos de interesse turístico. Curiosamente as casas em Malé não tem números e sim nomes, ou seja os carteiros devem passar um trabalhão tentando decorar o nome das casas em cada rua.

Depois de 8 dias comendo a péssima comida do Hudhuranfushi, nosso pit-stop na volta seria em Dubai, onde decidimos passar 2 dias para conhecer o local e surfar uma piscina com ondas em Al-Ain, em pleno deserto dos emirados. Nas Maldivas, fizemos amizade com 2 casais de brasileiros, um deles é piloto da Emirates, gaúcho, vive em Dubai e sua esposa, para nossa sorte é guia turística em Dubai. Assim, fechamos um pacote com ela de dois dias para conhecermos Dubai e a piscina das ondas com o outro casal do Rio de Janeiro. Com a ajuda Bárbara e com o tempo curto, fomos direto ao que interessa em Dubai. Conhecemos os mercados locais (souks) e os principais e mais impressionantes construções, como o hotel Atlantis, o maior, mais cheio e mais cansativo shopping center do mundo, Dubai Mall e o maior edifício da mundo, o Burj Khalifa. Alias, Dubai é superlativo, tudo é gigante e pretende ser o maior e mais luxuoso do mundo, na maioria das vezes eles conseguem…. O tour com a Bárbara é altamente recomendável, se economiza tempo e dinheiro. O contato dela é b.borba@hotmail.com  e o telefone em Dubai é +971 55 9202469. O contato via Facebook .

O dia seguinte visitamos a maior e mais luxuosa Mesquita em Abu Dhabi e depois rumamos pelo deserto até o Wadi Adventures, a piscina com ondas. Esse parque é uma doideira, em pleno deserto os caras construíram um parque aquático com excelentes ondas. É preciso fazer reserva pela internet com antecedência, pois a procura é grande. É possível pagar prá surfar com outros ou melhor, fechar a piscina prá voce e seus amigos por períodos de 1 hora, e foi o que fizemos, fechamos a piscina para um grupo de 5 por 2 horas. Aí você pode escolher 3 tipos de ondas: esquerdas, direitas ou um onda que quebra pros dois lados. Também é possível escolher o tamanho da onda, num máximo de 6 pés. Avisa o salva-vidas que ele “reprograma” a onda. Depois é só sentar no fundo da piscina e esperar pela sua vez. Vem uma onda por minuto. O drop é bem em pé, mas depois a onda fica fácil e abre uma parede bem manobrável de uns 30 metros. Eu demorei prá pegar o jeito da onda até porque tava usando uma das pranchas que o parque tem de graça, mas foi um erro, leve sua prancha. As pranchas de lá são uma porcaria. É um sonho de surfista, escolher o tipo de onda que se quer e surfar só com os amigos tendo o deserto como pano de fundo. Muito louco e se você estiver um Dubai ou fazendo uma parada a caminho das Maldivas ou da Indonésia, tente encaixar uma ida ao Wadi Adventures. Infelizmente, em Dubai perdemos Al Ibhar para um problema estomacal e ele acabou fazendo quase o tempo todo confinado no quarto do hotel, foi a nota desagradável desta etapa.

Não é uma viagem barata, longe disso, mas como era a comemoração de 50 anos da maioria dos membros da trip, valeu o investimento. Se alguém estiver planejando uma trip prás Maldivas e quiser mais dicas, é só falar. Enfim, mais um destino carimbado, agora é começar a pensar na próxima. Shukria e Shukram !

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