California 2010

Depois de alguns dias de muito tenis no Us Open, com pitadas de ESPN (jogos de baseball e futebol americano) em New York e longas caminhadas em Washington, parti pra California em busca do esporte número um, o surf. A perna californiana da trip foi do dia 05 ao 20 de setembro. O plano foi simples: chegar em San Francisco, fazer um pequeno turismo e percorrer a costa de carro até San Diego, sem muito compromisso com datas e locais. Fomos reservando os hotéis de uma noite pra outra só nas barbadas do site priceline.com (baita dica!), onde dá pra dar lance de quanto tu quer pagar nas diárias. Geralmente os hotéis aceitavam os nosso lances. Pagamos muito barato por hotéis bem luxuosos. Era até engraçado eu entrando de pé descalço, cheio de areia, com a prancha e o long pingando nos pisos de mármore, no meio de um monte de cara engravatadinho. Em algumas cidades menores ficamos nos motéis-hotéis Super 8 e Six, duas redes bem boas e baratas, reservando na hora. Quanto ao surf, antes de partir, eu não conhecia nada, mas reuni algumas dicas com o amigos, me informei sobre os picos mais famosos, anotei todos os surfspots mencionados no Surfin' USA dos Beach Boys e, na falta de um livro, imprimi os guias de uns cem picos do wannasurf.com .

Northern-Central Cali
A primeira coisa que tive que fazer foi comprar uma prancha, pois além da Copa não transportar pranchas no mês de agosto, eu também não ia ficar carregando o trambolho por dez dias pelos Estado Unidos. San Francisco não tem tantas lojas de pranchas assim. A maioria das surfshops que constam no google não tem pranchas ou não existem. Vi só duas lojas de pranchas, sendo que a melhor foi a Wise Surfboards, realmente especializada em pranchas. Foi onde comprei a minha.O único pico que eu realmente queria surfar em SF era Fort Point, em baixo da Golden Gate Bridge (segundo o guarda do parque não tem tubarões brancos na baía), mas não tava quebrando nada por lá. Droga! Por isso peguei a prancha só na saída de SF, quando eu tava indo pra Santa Cruz. No caminho, aproveitei pra surfar na primeira baía que apareceu, já que em SF tava muito mexido pelo vento. O nome do pico é Lindamar. Sai do carro na fissura pra surfar aquele meio metrão. Teria sido ótimo o surf naquele beach break comum não fosse a água ter sido a mais gelada que eu já cai, disparado! De doer o olho! Eu sabia que no inverno o long pra lá é 4.3mm, mas estávamos no verão ainda. Imagina… Depois de almoçar no Taco Bell que tem ali na beira da praia, fui até Half Moon Bay ver onde estaria quebrando Mavericks, se tivesse onda. A cidade até que é bonitinha, mas o pico é muito feio… visual peruano! Tirei a foto e fui embora. Chegando em Santa Cruz, fiquei um pouco triste de ver Steamers Lane e Plesure Point com ondas de 1-2ft (e diminuindo). Foi realmente uma pena, porque esse era o pico que eu tinha mais expectativas. Só um que outro longboard boiando na água. Aproveitei pra curtir um pouco da cidade, que é bonita (mas um pouco largada após o fim da temporada). Conheci as bonitas paisagens e tradicional loja da O'Neil. Vi o grande potencial dos picos. Fiquei só imaginando pular das escadinhas nos penhascos com aquele 2 metrão quebrando. Pena… Dada a previsão de flat, sem esperança de melhora, que eu checava a cada hora no surfline.com (site que se mostrou o mais confiável), peguei a estrada na tarde seguinte. Fui pela Highway 1 rumo ao sul. Dei uma parada em Carmel. A cidade e a praia são realmente lindas. As construções são todas chiques e charmosas. A minha namorada adorou. Mas o esperado flat fez com que a vigem seguisse. Nem senti o tempo passar ao dirigir pelos penhascos e florestas do Big Sur. Uma paisagem mais bonita que a outra. Ainda bem que descobri o piloto automático do carro (aquele da velocidade), o que me permitiu prestar um pouco mais de atenção nas paisagens. Volta e meia tinha que cuidar pra não "abraçar" uma das árvores que invadem o acostamento. Passei lotado por San Luis Obispo, que até valeria a pena conhecer os picos se tivesse onda, e cheguei de noite em Santa Barbara. No dia seguinte, aquele turismo básico pela cidade, passeio pelo pier (a maioria das cidades da Cali tem piers, só que o que menos tem são pescadores, que dão lugar a lojas e restaurantes), etc. Vi um cara tentar surfar, sem sucesso, a marola que entrava em Sandplit. Pouco tenho a falar de Ventura, porque passei reto pela entrada de Rincon Beach e na County Line tava tudo liso. Pelo que eu entendi, a região norte da California depende de swell do quadrante norte e a ondulação que vem do sul, que mais constante ao longo do ano, perde muita força até chegar lá. No verão essa ondulação de NW é mais rara, mas em setembro já era pra ter começado a funcionar. Dei azar.

SO CAL
Na chegada a Los Angeles, vi algum sinal de vida no mar de Malibu, mas nada que empolgasse. Acabei ficando duas noites em Venice Beach, LA. Cheguei a levar a prancha pra beira da praia, mas acabei me conformando com uma caminhada pelo calçadão de Venice, no final de tarde. O lugar é muito astral! Por-do-sol, a galera praticando vários esportes… Na falta de ondas, a pista de skate tava bombando! No dia seguinte, se repetiu o flat e fui pro parque da Universal Studios. O bom da Cali é que se não tem onda, tem milhares de outras coisas pra fazer. Bom, agora começa o surf. Com o surfline prometendo ondas de até 4ft no Orange County, me toquei pra Huntington Beach. Fui meio desconfiado, porque as praias do sul de LA (Manhattan e Redondo Beach) continuavam lisas, mas chegando lá foi só alegria. Depois de três dias sem surfar, já quase brigando com a namorada, cai faceiro na água, junto ao pier. É um beach break exposto ao vento, mas já com uma certa qualidade. Tinha um metrinho na série. No primeiro banho cai no canto norte, um pouco mais mexido, pois no sul tinha um campeonatinho. No final da tarde o surf foi lado sul do pier, onde peguei boas ondas até ser levado pela corrente. Parece que é assim: quando o swell é de sul, de uma hora pra outra, vem um correntão que não adianta nem remar. A droga é atravessar o pier levando onda na cabeça, hehehe! Entre um banho e outro fui ver o famoso The Wedge. Infelizmente acabou a bateria da câmera, mas posso afirmar que é pico pra bodyboard ou vaqueiro… Com as ondas de volta a cena, surfei duas manhã numa bancada de coral que descobri por acaso em Laguna Beach. O pico se chama Brooks Street. É bem tranquilo de surfar lá apesar de ser uma onda de pé e rápida, que leva até a beirinha. Depois, fui costeando, conhecendo os picos (Laguna e Aliso Creek) até o sul do Orange County. Passei por Doheny, uma praia muito astral, surf das antiga, onde quebrava uma onda pequena, mas paradisíaca para os longboarders. Passei pela entrada de Trestles que tava explodindo de gente e fui pra San Onofre ali do lado. Parei o carro no parque nacional (facadinha de 15 doláres) e dei uma surfada por ali. Ali também tinha um astral muito legal. Várias famílias de surfistas que passam o dia por ali, entre o mar e a volta de seus carros (muitos são aqueles típicos carros do surf). A onda, em si, com fundo de areia e uma pedra que outra, achei um pouco gorda demais… Não é a toa que é tomada pelo pessoal do pranchão. No fim de tarde, caminhei até Trestles. Ali tem vários breaks… Tirei até uma foto da explicação. Mas o que eu queria surfar mesmo era Lower Trestles, onde tava rolando o CT. Esperei 10 minutos na areia pelo fim da última bateria e cai na água junto com uma galera, entre eles alguns pros, que também estava esperando. A onda é realmente World Class! Muito melhor do que tudo que eu tinha surfado até agora. As ondas eram bem disputadas, mas consegui o meu espaço e não fiz feio. Com uma qualidade de onda como essa acertei as manobras como nunca… fiquei muito feliz e de cabeça feita! Em meio a isso, a crowd parecia estar babando o ovo do Andy Irons… Ele gritava "vou pra esquerda" e ninguém mais remava na onda. Vai entender… Casca mesmo era sair pelas pedras. De um modo geral, os picos de Trestles quebram em umas pedras redondas e pequenas (mas que arranham todo o pé do cara), em uma profundidade não muito grande. No final da onda, quase sempre ficava com água na cintura. Na tarde seguinte, surfei em San Clemente, T-Street. O beach break é bem divertido e caiu como uma luva como aquele surf entre o da manhã e o da tarde. A cidade de San Clemente é bem ajeitadinha e, como os picos da região, tem um trilhos de trem na beira da praia. Na sequência, sem o CT, surfei em Upper Trestles. Já conhecendo melhor a região, deixei o carro na rua de Cristianitos, atravessei a estrada e peguei a tradicional trilha. Trilha só no nome, porque o chão é de asfalto. É muito comum a galera pendurar a prancha no pescoço e fazer o trajeto de skate ou bike. Achei muito bacana! A onda é um ligeiramente inferior a sua vizinha, mas também muito boa. O mar também já começava a baixar dos 4-5ft. Seguindo o tour, fui pra região de San Diego. Del Mar, não estava valendo muito a pena. Conheci La Jolla, e lá surfei em duas bancadas de coral muito boas. Uma delas é Hospitals (esperando que o nome não tivesse a ver com acidentes ali ocorridos). Fui bem conservador, dada a pouca profundidade, mas peguei boas ondas também! Tava com meio metro, com séries maiores. O pico é lindo e fiquei surfando do lado de umas focas. O pessoal na água meio que brincava "aquela foca parece estar assustada… o que será que assustou e la?". Mas acho que naquela profundidade, qualquer tubarão que se preste ficaria encalhado. Depois remei uns 200-300 metros pro lado até Horseshoe. Ali tava quebrando maior, com um metro, e bem melhor. Só tinha um cara surfando com sua kneeboard. O cara era um velinho, surfista pioneiro, cheio de histórias. Ele me disse que foi salva vidas no Hawaii e viu ao vivo aquela cena do filme do Bruce Brown, onde Pipe é surfada pela primeira vez (segundo ele pelo seu colega de quarto). Perguntei por que tinha menos gente em Horseshoe, se a onda era melhor. Ele me disse que era bem mais raso ali e a onda era bem mais desafiadora. Isso era verdade. Felizmente não averiguei a profundidade.Com a baixa da ondulação e a previsão de um swell maior dali a três dias, tirei um tempo pra ir pra Vegas e o Grand Canyon. Na volta, fui sedento direto pra Lower Trestles, o pico que mais gostei, como se percebe. Era o penúltimo dia do CT, entrei no meio daquela crowd pelo lado e aproveitei a ligeira corrente que tem lá pra deixar boiar até o pico. Quando eu cheguei lá, eu olhei pro lado e vi exatamente do meu lado, a não mais de um metro, o Kelly Slater. Coincidência ou não – ele pegou uma onda e saiu da água. Antes disso, cheguei a remar numa onda com ele, em uma vala que um outro cara acabou vindo na preferência… Confesso que dá um nervoso remar na mesma onda que o cara… Até porque eu estaria na preferência e teria que ter culhões pra gritar pro Kelly Slater sair da onda… ainda bem que veio esse outro loco na preferência, hehehehe! Altas ondas de até 7ft. Surfei até de noite, com lua e tudo. E olha que quando eu sai da água o Bobby Martinez e o Fred Patacchia continuaram na água… Tava muito bom! No dia das finais, surfei pela manhã em Swami's. Onda muito legal e longa. Lotada de gente… mas valeu muito a pena. Depois, voltei a Trestles… Vendo o vídeo da ASP (http://www.youtube.com/watch?v=rKhp4Mgm6Ic&feature=player_embedded), quase não acredito que eu surfei aquelas ondas, naquele dia tão perfeito!!! A hora de voltar estava próxima… Voltei pra LA, aonde tinha que pegar o voo de volta. Mas não fui embora sem pegar um Malibu clássico. Achei a praia linda, alto astral e com o três point breaks pra todos os gostos e idades!

Epílogo
A trip foi maravilhosa e já to pensando em voltar. Tem surf pra quem quer surf e toda a infra que os Estados Unidos possui pras horas pós surf. Lojas, restaurantes e atrações turísticas. Além dos eletrônicos, as roupas (comprei várias de surf) são muito afude e baratas. Comprei um leash por $ 25,00 e várias parafas Stiky Bumps a $ 1,00 (me senti um idiota pagando R$ 10,00 aqui)!! A California respira surf! O ambiente é muito bom e resgata o verdadeiro espírito do surf (tal como temos aqui no forum), cada vez mais raro hoje e aqui no Brasil. É muita verdade o que foi dito que o pessoal lá encara o surf de uma forma diferente. Ao invés daquela gritaria no meio da crowd a cada onda que vem, o pessoal prefere conversar (sobre surf, claro), mesmo que a pessoa do lado seja completamente desconhecida. Achei os americanos mais "comportados" surfando ali, na casa deles, do que aqueles que eu encontrei surfando na Costa Rica. Acho que o que contribui pra essa boa educação é que lá, quem toma conta dos picos são os pioneiros, os sauros do surf, o que mantém aquele espírito de companheirismo e união pelo esporte. E os novos aprendem com os pais. "Old guys rule". Reflexo disso, boa parte das roupas de surf são voltadas para o público mais velho. Se procurar, é capaz até de encontrar um terno da Quiksilver ou da O'Neil. E a prancha, fiquei com ela! É uma Chilli Surfboards, 6'2 de epoxy… Três caras, em diferentes situações, vieram me falar que a prancha era muito bala e que esse James Cheal (shaper) é tri bom, etc… e já me contaram que o cara é Australiano e que volta e meia vai pra Cali shapear algumas pranchas por lá… Um cara duma loja me disse que a prancha era boa demais pra ele vender pros clientes dele! Dai, diante dos elogios e da dificuldade em vender, fiquei com ela… Outra coisa que eu curti foi o encaixe das quilhas… Esse Future Fins me pareceu bem mais seguro do que o da FCS… e veio com umas quilhas originais! Agora to com duas pranchas praticamente iguais… Não decidi qual vou vender, se vender…

Fiz a cabeça! Ah! Pra quem tiver interesse, as fotos tão no link habitual do picasa: http://picasaweb.google.com/ericslater.wct/CaliSurf#

Marquei no mapa onde eu tirei cada foto, em caso de dúvida de onde alguma foto foi tirada…
ABs!
Eric

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