Norte do Peru 2010

Com os preços absurdos que os nossos vizinhos de Santa Catarina estão pedindo pele aluguel de casas ,decidi investir um pouco a mais e surfar em ondas de verdade. Comprei a passagem da TACA pra Lima, direto de Porto Alegre e fui embora, só com a mochila e as pranchas… Uma 6'2" e uma 6'7".

Dessa vez, fiz o relato de uma forma diferente. Fui escrevendo nos momentos de esperas e das viagens mais longas, durante a trip que ocorreu entre os dias 19 e 29 de janeiro de 2010.

Dia 19: Chego em Lima e descubro no aeroporto que recém tinha começado uma greve geral das empresas de ônibus interestaduais e que as estradas que saem de Lima estão bloqueadas. Os ATM não funcionam e não consigo sacar dinheiro e tem uma fila enorme para comprar passagens na hora no aeroporto. Por sorte, eu não consegui comprar online a passagem de ônibus até Talara, pois já tinha passado a antecedência mínima de dois dias. Que bom, teria perdido o dinheiro do bus. Mais sorte foi eu ter descoberto da greve ainda no aeroporto, no detalhe. Eu já ia tomar um taxi até a sede da Civa, mas resolvi perguntar nas informações turísticas quanto sairia mais ou menos a corrida até lá (pra não ser enrolado). Aí que veio a notícia. O bloqueio durou mais uns quatro dias… Liguei pro Brasil e emiti online uma passagem pra Piura, no voo que decolava dali uma hora. Economizei umas três horas na fila da LAN e fui direto pro check in com U$ 187,00 a menos na conta. Tudo feito, voei na incerteza pra Piura, onde eu esperava encontrar algum transporte que me levasse até Lobitos. Pra completar, o telefone da casa do Vanucho, onde eu pretendia ficar, só caia na caixa postal. Viagem é isso mesmo… o cara tem que improvisar. É claro que com dinheiro o improviso fica mais fácil!

Dia 23: Chegando em Lobitos fui parar na casa do Nacho. Muito legal, considerando que o lugar é desértico e fica em meio a um campo de extração de petróleo. Paguei S 50,00 por dia, por um quarto meio enjambrado e todas as refeições. Não teria muitas opções de restaurantes mesmo… e o Nacho faz uma pizza boa pra caramba! Tinha uma galera do Brasil na casa. As ondas estavam boas no primeiro dia (dia 19) graças ao voo que eu peguei consegui surfar… Ganhei um dia a mais de surf, já que a viagem de bus demoraria 17 horas. Demorei um pouco pra me adaptar, pois as pedras quase a mostra no pico onde o se fica esperando as ondas dão uma pressão no cara. A brincadeira dos locais, inclusive, é ficar esperando a série de pé, em cima de uma das pedras, com água no joelho. Nada muito saudável. Na quarta-feira não deu muita onda, mas fui me acostumando, surfando em Lobitos (o pico que quebra no canto) e no General (pico que quebra no meio da praia em frente a uma casa abandonada que pertencia a um general, que deu nome à onda). Quinta-feira as ondas voltaram e eu já tava lidando melhor com a crowd no pico. Sexta de manhã rolaram as melhores ondas. Com Lobitos quebrando bonito nem quis saber de surfar Piscinas ou Baterias (outros picos da região). Tinha um metro e meio de onda, com séries de dois, beirando ao clássico. A onda começa gorda, tem que dar um cut back e cuidar pra não perder a onda no início, quando ela quebra em cima das pedras. Tem que cuidar também com o degrau que às vezes forma na hora do drop por causa das pedras. Depois entra na bancada de areia e a onda empareda numa sessão bem rápida, mas longa, onde rolam os tubos. Peguei dois tubaços insanos nesse dia! Muito afu! Na quinta, eu já tinha pego dois tubos pequenos no General…. Na sexta de tarde e sábado de manhã o corwd bombou e ficou difícil. Lá, todos os dias as séries estava de no máximo quatro ondas e bem demoradas, quebrando em um pico bem definido. Imagina isso com trinta pessoas esperando… e só galera com surf no pé. Enfim, crowd f***! Como já era sábado, fui pra Mancora.

Dia 25: Achei Mancora muito legal! Contrariando a maioria dos surfistas que diziam que o pico é crowd e com onda ruim… Devo ter dado sorte. Tava grande e, talvez por isso, com pouca gente. Diferente das outras praias peruanas, essa tem uma boa estrutura, lojas, turistas e um bom astral. Dá pra passar o dia na praia tranquilamente. Fiquei no albergue Loki por S 25, com café da manhã. Foi um grande acerto fazer a reserva antes de ir, pois o lugar lota… É na frente do pico, tem uma baita estrutura e me pareceu o melhor lugar pra ter ficado mesmo. Cheguei no sábado de tarde e peguei um mar de 2m. Altas ondas! Certamente bem mais tranquilo do que Lobitos, onda mais gorda, parecia um tobogã, e a crowd era bem mais desqualificada. No domingo, tirei a prancha grande da capa. Tinha séries de até 3m. Muita adrenalina. Peguei muitas ondas boas, apesar da noite de sábado regada a pisco-cola, cusqueña e reggaeton na cabeça. Ainda sobrou tempo pra umas compras nas surf shops. Nada demais, só umas camisetas. Na noite eu e uma galera chilena fizemos uma parrilla com umas salsichas peruanas suspeitas, que sequer dava pra cortar o plástico. Depois tomei um bus da empresa El Dorado, por S 55 até Trujillo. Na preguiça, acabei pegando um taxi até Puerto Malabrigo (onde quebra Chicama), que fica a um pouco mais de uma hora dali, por S 130. Seguia sem sacar dinheiro, mas ainda assim, peguei um hotelzinho um pouco melhor, de S 70, com vista e DVD, pois o vilarejo lá é meio deprê… Ainda mais recém tendo saído do agito de Mancora. Os hotéis turísticos ali ficam todos na frente do pico, bem no morro, no final da praia. Agora, em se tratando de surf, Chicama é tudo aquilo que se imagina ao ver as fotos. Peguei minha primeira onda de 500m. Rápida e de pé, tem que acelerar bastante (o que, na marra, aprendi a fazer bem), quase o tempo todo, pra não perder a sessão. Lá pelas tantas abre uma parede pra uma batida, uma rasgada rápida. De resto, quando a sessão te pega, é tentar o tubo ou o floater. Apesar de não ter saído de nenhum tubo nesse primeiro surf em Chicama, sentia que era questão de tempo.

Dia 26: Nesse dia rolou a sessão de fotos tomadas pelo Jesus, codinome Zorro, que é o fotógrafo local. Apesar do cara não ser muito profissional comparado com a qualidade das fotos do Vaquero, de El Salvador, ele conseguiu pegar uma boa onda minha, com um floater. Foi o dia das maiores ondas, head high. Chicama quebra sempre menor do que as redondezas. Mas a corrente de Chicama é algo! Sem exageros, parece aqueles mares do RS que tu anda quilômetros só boiando. Cinco minutos sem remar basta para estar longe já do início da onda. Nessas horas que o barquinho (zodiac) se faz útil, pois além de não precisar remar, ele já te larga lá atras e a corrente te joga no pico. Pena que eu tava sem sacar dinheiro, porque eu tinha que varar e se, depois de passar a arrebentação (o que é fácil, o difícil é passá-la se a corrente te levar pro lado), se não vinha a série ou não pegava a onda, já não tava mais surfando a onda desde o seu início. Se bem que isso não quer dizer muita coisa… A onda é tão longa que se tu começar a surfar na metade e conseguir se manter na onda, ainda tem vai ter onda pra cansar as pernas, literalmente. No hotel (Sueños), quando não tava surfando eu fazia um rango (miojo) e me divertia com o Maximo, um cachorro muito engraçado, que lembra o Marley e eu do livro. Alegre, faceirão e desastrado… Ele quase destruía o gato do hotel com as brincadeiras dele. Quando eu fui tentar sacar dinheiro, o bicho foi junto, subiu na motinho, entrou no banco, azucrinou o centro de Malabrigo. De noite, comprei as fotos que o Zorro tirou, umas cinquenta e poucas e dois vídeos, tudo por uns S 50.

Dias 27 e 28: Com o swell baixando em Chicama e a verba acabando, decidi ir pra Pacasmayo. Ainda deu tempo, no apagar das luzes, de pegar aquele "chapéu" que eu fiquei devendo. Fui de Tuc-Tuc (mototaxi) até a cidade de Paijan de onde peguei o bus, na estrada, rumo a Pacasmayo. Lá fiquei no hotel que todos surfistas ficam, o Los Faroles, por S 50 com as refeições. Ufa, finalmente consegui sacar dinheiro! Já tava cogitando em vender uma das pranchas. Dividi o quarto com um australiano gente boa, mas que curiosamente não tinha parte da testa. Não perguntei, mas esperava que ele não tivesse feito aquilo surfando… Na pousada tinha uma galera brasileira. Aliás, o Peru inteiro tá sendo invadido pelos brasileiros. Todos viciado na bolachinha Choco Soda. Eu não podia ser diferente… A melhor bolacha que eu já comi. É tipo um Club Social com um monte de chocolate por cima… Melhor que Bis. Eu trouxe seis pacotes pra cá…. Enfim, pegamos onda junto com um Israelense que, não acostumado com ondas daquele tamanho, tomava várias ruins sem nunca desistir. El Faro, pra mim, foi o melhor pico da trip. É um lugar pedregoso, mas fui tranquilo sem botinha. Apesar de alguns alertas, nem me preocupei muito com uma pedra que sai pra fora d'água bem no meio do pico… Passei por cima dela, cai da onda em frente a pedra, tudo sem maiores problemas, já que naquelas ondas o joelinho é mais eficiente. A remada é tranquila, um pouco mais longa pra varar, mas em compensação a corrente é quase parada. Peguei as minhas melhores ondas no El Faro. Pena que o Carlos, fotógrafo do Los Faroles deu uma de preguiçoso nos dois dias e foi tirar as fotos só das 11:30 às 13:00… vê se isso é hora de ir surfar… Altas esquerdas chegando aos 2m. Peguei ondas tão longas quanto Chicama, só que bem maiores e mais power. Isso que em Huanchaco, que é pertinho de Trujillo, no campeonato que tava tendo, o boletim das ondas era de 4m… Incrível estar tão maior num pico há apenas duas horas dali. Mas Pacasmayo é muito surf. Pra ir até El Faro, o cara pega um Tuc-Tuc por S 5 (3 pessoas) e vai com as pranchas em cima. É muito peculiar… Dá 10 minutos e é muito engraçado quando a motinho atola, que os peruanos fazem um Fred Flintstone pra poder sair… Eu ia dizer que meu maior erro por já ter comprado a passagem de volta pra Lima de Trujillo, mas as coisas iam dando tão certo que eu consegui trocar o bilhete pra sair de Pacasmayo pagando a diferença.

Dia 29: Último dia, hora de voltar, mas com surf. Voltei com uns cariocas até Lima na noite anterior (chega de manhã cedo) e ao invés de ficar morgando no aeroporto, peguei um taxi com eles até Punta Hermosa, onde eles iam ficar. Surfei em La Isla. A galera falava mal, com certo preconceito de La Isla, mas depois de só surfar esquerdas em pé, tudo o que eu queria era umas direitas gordinhas. Tinha um tamanho bom e acabei resolvendo o assunto que tinha ficado inacabado de 2005. Eu tinha tomado muitos caldos, mas quatro anos e dois meses depois eu enchi ela de rasgadas até a beirinha. Assunto resolvido. Saudações ao bom treino que El Sunzal proporcionou. Aliás, achei essas duas ondas bem parecidas, em tudo. Altas ondas! Almocei e peguei as minhas coisas que eu tinha deixado no Luisfer. A pousadinha é ajeitada, mas é mais pra gurizada. Ela fica no condomínio da praia de Pta. Hermosa, que, aliás, evoluiu muitos desde a última vez, tem uma boa grana investida lá e a praia tá bem bonitinha. Outro lugar levável pras Senhoras… Na volta pra Lima, peguei um taxi com uma galera da pousada que ia fazer compras. Incrivelmente o taxista se perdeu pra chegar em Miraflores e nós tivemos que ensinar o loco (era só saber ler as placas). No final, ainda fiz umas comprinhas de surf antes de ir pro aeroporto.

Em resumo a trip foi ótima. Achei os lugares bem mais tranquilos de surfar do que achara em 2005. Não sei se porque no norte do Peru as ondas são mais fáceis ou eu to mais preparado agora. Um pouco dos dois talvez. Com certeza, valeu a pena em termos de surf e econômicos. O câmbio por x 0,6 contribuiu pra isso. Enfim, reafirmei a conclusão que eu cheguei quando voltei de El Salvador: vale muito mais a pena surfar 10 dias nesses picos confirmados do que um mês a contar com a sorte no nosso litoral. Para se ter uma ideia, tive um choque quando, no carnaval, voltei a beira da praia da Barrinha (que eu adoro, por sinal): tudo parecia muito pequeno, as ondas a baia… Com uma onda no Peru o cara percorre a extensão inteira da praia…Incrível! Essa comparação também é sacanagem! Ano que vem, se tudo der certo, quero passar minhas férias de novo por lá!

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